“What
she asked of me at the end of the day, Caligula would have blushed.”
– Heaven Knows
I’m Miserable Now, The Smiths
Um sorrisinho consensual, brotando-se da flor da
minha inocência, quando olhei pela janela do carro lá para fora, para a
paisagem cinética duma pobreza sem comoção, e esperei – interpretar os meus
silêncios não é lá uma tarefa hercúlea e, jacente no banco do carona, eu era
todo uma deixa para quaisquer pedidos obscenos.
As
casinhas... Quantas vezes, na minha solidão, não olhei pela janela do ônibus a
imaginar as vidas sabe-se lá se venturosas atrás dessas portas?... Por vezes
introspectivo, por vezes projetando a introspecção nos outros. Ora, que sou
meio dado a obviedades e a reticências... Há de ser dito que nunca deixei de
observar, mesmo sendo um péssimo observador, um superinterpretador por
excelência, projetor de mentiras e cônscio disso, atrás dum sorriso diáfano de
envergadura enorme. Minutos antes, entrávamos na paisagem (desoladora?...)
daquela favelinha para nos abastecermos. Era já razoavelmente tarde, mas uns
meninos ainda jogavam bola na rua. Diferente do que geralmente se sucede quando
crianças da minha vizinhança jogam bola na rua, esses não pareciam incomodados
com a nossa passagem. Como os pombos urbanizados, que não se afastam quando
chega gente perto, o carro ia passando devagarinho e o jogo ia se ajustando ao
nosso deslocamento, nós inclusive desviando deles como de buracos, até termos
passado e podermos voltar à velocidade normal.
Entramos e saímos, até
que, e isso eu disse no último post sobre M., ele me perguntou do que era que eu gostava. Eu tinha
então dezoito anos, era tímido no tocante a sexo e deixara para ele o encargo
das iniciativas. Minha experiência era muito pouca, quase nada; resumia-se a
algumas masturbações e uma ocasião ou outra de sexo oral. Minha primeira trepada,
se me perdoam o vulgarismo – se não, nem precisam continuar a ler –,
foi uma porcariazinha grotesca, quando,
depois dumas insinuações, terminei por dar para um rapaz feio de pau pequeno.
Foi rápido e desagradável, dentro de um cubículo de banheiro, e quando ele
terminou, gozou dentro de mim e saiu. Corri para o vazo e já sentei cagando;
foi horrível. Levantei e admirei, ligeiramente nauseado, as fezes misturadas
com sêmen antes de dar descarga. Aliás, tenho várias dessas lembranças
escatológicas: beijos ácidos com o gosto emético de cigarro, os fedores sexuais
que invadem os ambientes quando se está imundo e se despe, o cheiro do esperma
e da genitália mal lavada, o boquete com gosto de mijo, e por aí vai... M.,
entretanto, não era nada disso. Era um príncipe desencantado, um burguês
decadente com ares de majestade, um comandante de centúria romano pronto para
me subjugar e fustigar. Meu doce violador que me amaria e repudiaria, como
alguém que, tendo levado a comida à boca, dignou-se a engolir, mas não a pedir
mais. Hei de conceder, no entanto, que, depois dessa noite, vimo-nos ainda com
certa assiduidade ao longo dos meses. Ele cada vez mais desinteressado,
naturalmente. Mas ainda não chegamos a esse ponto!
“Eu sou o que você quiser que eu seja”, disse. Estávamos no carro e
M. se despiu, desvelando a nudez espetacular. Não tive tempo para observações
mais minuciosas. Comecei a chupar avidamente aquela piroca linda. Gosto de
fazer sexo oral! Prefiro receber, è vero,
mas amo fazer. E ele tinha um pênis tão bonito!... Gosto de explorar o membro:
o dele, especialmente, era digno duma ópera. Quem sabe A flauta mágica, de Mozart. Chupo a glande, passo a língua em volta
dela, no frênulo, vou de cima a baixo, engulo tudo, dou mordicadas no saco etc.
etc. etc. Divirto-me como um pinto no lixo.
Paramos algumas vezes para cheirar, no caminho para Piratininga. Sim, Piratininga, o mesmo
lugar onde eu ainda teria noites de adrenalina com P., dois, três anos depois,
mas já falei disso. Podem caçar as postagens.
Estou há dias sem
escrever. Entediado, desmotivado, infeliz. Vocês, os leitores, devem ter
percebido isso por este texto díspar do meu estilo corrente. Relendo tudo, a
linguagem se mostra ainda mais decadente do que de costume e falta à naturalidade.
Não irei mais adiante. Reestabelecerei
meu ânimo e que venha a parte quatro!
